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A construção de “eus”

Francis Madson

“Penso, logo existo”. Esse pensamento cartesiano criou uma barreira significativa para compreensão do homem moderno. Os conceitos de carne e pensamento – sujeito e corpo – ficaram em dois lugares distintos, emoldurados em seus contextos e os retroalimentando. Acreditava-se, ritualizava-se, imaginava-se que o homem – total, unitário e concreto – compunha um célula impenetrável e imutável. O homem determinado por esse pensamento constitui uma ecologia do sujeito ocidental e, há um bom tempo, essas fronteiras são colocadas em estado de latência. Nesse momento há problemas maiores em relação a imutabiliadade do sujeito e ao binarismo – carne e sujeito, carne e pessoa, carne e ser, carne e pensamento – em alguns níveis de compreensao e de construção de informação.

Pensadores como Freud, Marx, Foucault, Derrida, Guatari e Deleuze escreveram largamente sobre o sujeito, sua construção, consolidação e fragmentação. Entretanto, alguns adentraram nesse denso conceito e consolidaram novas abordagens sobre essa construção, talvez, simbólica (outrora, metafórica e irreal) sobre a identidade e eus. Nasce um problema…! A luta demasiada do ser humano de se localizar como sujeito e toda sua identidade foram desterritorializadas a partir de alguns pensamentos envolvendo as especificidades da comunhão e da existência desse ser. Fragmentou-se. O sujeito e sua subjetividade foram colocadas em questionamentos próprios e vigentes, e as novas tecnologias são utilidades fabricantes de novas possibilidades de fuga do ser humano para que não se sinta um coletivo vazio – sem eu, sem sujeito e  sem identidade.
Hoje as novas tecnologias (principalmente as ligadas a informática e ao ciberespaço) nos possibilitam a construção de infovias e de relações interpessoais inimáginaveis. Porém, esse processo aborda algumas características que são importantes para obtenção de um caminho para enteder esse processo fractual da identidade – dos eus -, no contexto atual.
A identidade sofre um colapso. Um desalojamento conceitual e prático. Isso pode assustar consideralmente qualquer leitor, mas ao analisarmos o processo a fundo percebemos esse embate. Os computadores e seus softwares possibilitam a construção de avatares. Lucia Santaelle afirma que o corpo do cibernauta, no ambiente virtual, pode selecionar e incorporar um avatar para se mover em ambientes bi ou tridimensionais, encontrar outros avatares, comunicar-se com eles. Uma resposta ou uma reação aos questionamentos e as problemáticas entorno do sujeito? E as características que compoem sua identidade? No ciberespaço é criado e assumido determinadas “performances” de medidas específicas de acordo com cada processo para compor um avatar e, é através dele, que cada pessoa virtualiza as suas dimensões que determinam seu sujeito e sua identidade na finalidade de entrar em fluxo ativo no sistemas envolvidos. O sujeito defronte essas infovias, essas interfaces comunicacionais e no ciberespaço, a ideia de eu-identidade-sujeito, PRECISA, mesmo em crise, tomar outras medidas para comportar as velocidades, as birfucações e dinamicidades, a profusão e interatividade exigida.
Portanto, ao construir um AVATAR, o sujeito fragmenta e virtualiza sua identidade e esse processo entra em contato com outros avatares do mundo inteiro através do ciberespaço. E, nesse fluxo, os avatares são acessados por outros e, assim, comungam e constroem uma nova maneira relacional de troca de informações. Nesse conjunto global, o sujeito está em total conflito, enquanto suas virtualizações dialogam com outras avatares. Duplicar é o mínimo que acontece nesse processo. Por exemplo, nas redes sociais, um sujeito tem um profile no orkut, no facebook, no twitter, no hi5, no MSN, no YOUTUBE e em outros do seu conhecimento e acesso. Todos esses profiles são avatares de dimensões específicas, mas que dialogam fractualmente com parcelas desse sujeito e, as vezes, orquestrados por ele. Por que? Um outro avatar pode dialogar com o seu sem necessariamente haver sua presença nesse controle. Assim, cria-se uma relação de avatares com particulas mínimas dessa identidade em crise.
O sujeito (e sua identidade) procurou uma saída para esse processo amendrontador e, talvez, as novas tecnologias (informática e ciberespaço) poderiam ajudar nessa localização. No entanto, as respostas e as consensualidades são outras. O processo é invertido e totalmente fractual. Nasce, também, um ecossistema de micro-eus e só através dessa enunciação do sujeito que poderá ser capaz de romper as particularidades relacionadas ao embate e o ciberespaço.

Francis Madson é ator, performer,  artista de dança, dramaturgo e diretor. 

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Um Comentário

  1. Um artigo muito interessante, este do Francis. A sociedade informática em tdas as suas peculiaridades, enfrenta este dilema: como fazer um avatar gozar? Lembro que o termo avatar é uma criação metafísica da religião Hindu, os avatares de Krishna eram diversos, renovando sua figura por estas fragmentações do seu “eu” divino. O artigo aponta algumas direções, e é realmente bom ler um texto de teor “cibernético”, mas de uma linguagem que alcança ao leitor. Very Good! Jorge Bandeira

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