Amores de Chumbo

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por João Vítor Figueira

Amores de Chumbo parte de um dos temas mais explorados pelo audiovisual brasileiro em todos os tempos para compor um registro singelo e poético sobre a persistência da afeição. Trata-se de um filme vagaroso e delicado que aborda a ditadura militar para traçar paralelos entre os efeitos desta que é uma ferida aberta na vida pública do país com as relações interpessoais e particulares de seu trio de protagonistas. Um dos grandes trunfos da obra, que não é perfeita, está já em seu argumento. Ao tatear os signos do cinema romântico sob a perspectiva de personagens na terceira idade, o filme firma-se como um bem vindo discurso sobre a riqueza de se evidenciar grupos subrepresentados no audiovisual. Aqui se ama, sente tesão e sofre com uma veracidade adolescente (ou melhor, humana), embora isso se manifeste de forma mais contida.

Usando a cidade de Recife como uma locação-personagem, a diretora pernambucana Tuca Siqueira inicia com o pé direito sua incursão pelo território dos longas-metragens de ficção. A realizadora mostra personalidade em suas escolhas estéticas neste projeto, com destaque para os longos planos fixos que dão aos personagens o tempo e o espaço que necessitam para se expressar. Filha de ex-presos políticos do regime militar, a cineasta explora em Amores de Chumbo um tom relativamente similar ao do bom curta-metragem Vou Contar Para os Meus Filhos (2011), que tem até certa leveza ao revisitar as vidas de mulheres que foram encarceradas e torturadas durante o governo totalitário. Nos dois filmes, o público é convidado a olhar para trás sem o intermédio de vídeos de arquivo ou fotos antigas, mas através das palavras de seus personagens, propondo um tipo de imersão no pretérito que exige a atenção do espectador.

“Só queria saber o que se faz quando uma pessoa volta assim de longe, do passado. O que que se faz?”, indaga Miguel (Aderbal Freire Filho), um professor de sociologia, pai e avô que participou da resistência ao regime militar e pagou com sua liberdade. Durante os anos preso, Lúcia (Augusta Ferraz) foi quem o visitou na cadeia e se empenhou em tirá-lo de lá. Daquela relação surgiu um romance que se transformou em casamento. Logo na primeira cena do filme, Miguel e Lúcia são apresentados comemorando quatro décadas de união, mas o tom celebratório logo dá início a uma série de dúvidas. A rotina do casal é afetada pelo retorno de Maria Eugênia (Juliana Carneiro da Cunha), uma escritora radicada na França que deixou o Brasil exilada. Ela foi namorada de Miguel durante a ditadura e melhor amiga de Lúcia. O conflito se impõe em tela quando se descobre que, por ter se apaixonado por Miguel, Lúcia agiu para que Maria e seu futuro marido não mantivessem contato — alienando o casal apaixonado e escondendo as cartas que deveriam ter chegado aos seus destinatários.

Roteirizada por Siqueira e Renata Mizrahi, a trama é eficaz em partir de um evento muito conhecido para um drama privado, evidenciando as relações entre as esferas macro e micro. Como resgatar o tempo perdido? Amores de Chumbo escolhe deixar essa questão em aberto e relaciona o saudosismo de seus protagonistas com o pensamento do filósofo grego Heráclito ao tratar da impossibilidade de mergulhar duas vezes no mesmo rio, já que nem o rio nem a pessoa que retorna a ele será a mesma com o passar do tempo. O ímpeto do passado é o motor das angústias dos personagens, mas há espaço para agruras e delícias do romance neste projeto.

A câmera de Siqueira escolhe dar espaço para que seus personagens se destaquem em cena. Muitas vezes os atores estão nas extremidades do quadro fixo, mostrando a distância física e emocional entre eles. A dramaturgia evoca o teatro, onde o elenco do filme tem muita experiência. Por lançar muita atenção nas performances e no texto, a escolha pela câmera estática nem sempre parece adequada. Há certa irregularidade nos diálogos. Enquanto alguns soam naturais e realistas, outros são “escritos” demais. Além disso, a ótima atuação de Aderbal Freire Filho, que entrega uma intensidade contida para viver Miguel, acaba destoando de outras encenações que remam na direção de um elegante minimalismo, mas por vezes atracam na falta de expressividade.

Amores de Chumbo tem seu melhor momento quando Miguel e Maria visitam um antigo presídio e o plano aberto escolhido por Siqueira se mostra a melhor escolha para acompanhar a lenta reaproximação dos dois. Há uma bela sensualidade na cena e em seus detalhes, como o vestido vermelho vestido por Maria, a textura envelhecida das paredes que materializa metaforicamente os sentimentos dos dois e o fato daquele espaço vazio aos poucos ser preenchido pela ressurgência daquele afeto adormecido. Na cena seguinte, quando a voz de Gal Costa na canção “Negro Amor” ganha vez de forma diegética, o espectador e os personagens sabem que não será possível frear mais uma vez um romance forçado a adormecer.

O filme perde o ritmo perto do desfecho e com o passar do tempo se percebe que a personagem de Augusta Ferraz, a esposa de Miguel, recebeu pouca atenção do roteiro e virou quase uma personagem secundária. Teria sido interessante saber mais sobre os motivos que a fizeram esconder o segredo principal do filme por tanto tempo, bem como conhecer sua personalidade mais a fundo.

Amores de Chumbo tem sim momentos que atenuam sua potência, mas é um trabalho honesto e delicado que cruza política e afeto de uma maneira poética. O filme emociona justamente pela forma como trata um dos sentimentos mais agridoces do espectro das emoções humanas: a nostalgia.

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