Arábia

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Arábia
Ode ao trabalhador
por Lucas Salgado

Três anos após se destacar com A Vizinhança do Tigre, o cineasta Affonso Uchoa chega com um novo trabalho, agora acompanhado de João Dumans na direção. Se no longa anterior, a dupla – Dumans era roteirista – focava sua atenção na periferia de Contagem, com jovens que lutavam contra as condições impostas pelo mundo e se dividiam entre o trabalho, muitas vezes duro, e a vida do crime, agora eles usam a região como ponto de partida para uma trama ainda maior.

Arábia - Imagem: Divulgação
Arábia – Imagem: Divulgação

Arábia começa apresentando a história de um jovem que mora com o irmão mais novo em Ouro Preto. Os pais nunca estão presentes e o garoto tem a responsabilidade de cuidar do caçula, que tem problemas sérios de saúde, com a respiração prejudicada. André (Murilo Caliari), o mais velho, conta com a ajuda da tia, uma enfermeira que trata várias pessoas na região. Determinado dia, um dos operários de uma fábrica local sofre um acidente e a tia pede a André que vá até a casa dele apanhar algumas roupas e utensílios básicos. É quando o jovem acaba encontrando um caderno com memórias da vida daquele operário, chamado Cristiano (Aristides de Sousa).

A partir daí, o filme mergulha completamente na vida de Cristiano, que passa a ser o narrador da história. De forma corajosa, o longa troca de protagonista após um período considerável focado em André. É curioso notar que o título do filme, Arábia, surge na tela justamente no momento que passamos para a trama de Cristiano, mostrando que aquilo visto antes era, de certa forma, um grande prelúdio.

Antes de entrarmos com mais detalhes na parte principal do filme, centrada em Cristiano, é importante destacar alguns elementos da trama de André, que também tem toques melancólicos e uma naturalidade impressionante na dinâmica entre os irmãos. Destaca-se ainda a fotografia Leonardo Feliciano, em especial no plano-sequência extraordinário que abre a produção, com André andando de bicicleta com as montanhas de Minas ao fundo, num cenário rural e contemplativo, que ganha força ao som da canção “I’ll be here in the morning”, de Steven Van Zandt. A linda abertura é quebrada com a chegada do menino na cidade, se deparando de cara com a fábrica de alumínio local.

Ao ingressarmos na história de vida de Cristiano, somos jogados num turbilhão de emoções, todas impactadas pelo belo trabalho de narração de Aristides, que de certa forma lembra um pouco a poética performance de Irandhir Santos em Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo. A narração em off, principalmente quando presente em boa parte de um filme, muitas vezes é problemática, mas aqui é um dos elementos mais interessante, uma vez que a voz de Aristides passa uma humanidade pungente ao espectador.

Natural de Contagem, Cristiano passou um tempo na prisão ainda jovem. Então, decide deixar sua cidade para evitar entrar num ciclo de violência que o leve mais uma vez para o cárcere. A partir daí, circula pelo interior de Minas procurando empregos e, muitas vezes, aceitando condições precárias de trabalho e moradia. Ele atua na lavoura, faz pequenos bicos e, por fim, embarca no dia a dia feroz de fábricas. O filme é uma ode ao trabalhador comum, aquele indivíduo sem muita esperança, que tenta levar a vida de forma honesta, independente de não ter muita escolaridade. Num momento como o que o país vive hoje, com direitos trabalhistas sendo cortados, Cristiano é mais do que nunca um retrato do brasileiro simples.

Com o mérito de oferecer uma análise crítica com uma história acessível e tocante, Arábia é uma produção singular. Muitas vezes no cinema brasileiro, o cineasta de classe alta tentou retratar o dia a dia do trabalhador. Alguns conseguiram, é claro, mas muitos falharam. Naturais de Contagem, os diretores sabem do universo que estão tratando e oferecem um olhar diferenciado sobre os personagens. Ao assistir a produção, sentimos agonia e sofremos ao lado de Cristiano, mas também celebramos seus momentos de felicidade – como quando se apaixona por Ana (Renata Cabral). A relação do espectador não é de pena no que diz respeito ao protagonista. Apesar de sermos um olhar de fora, a sensação é de que estamos ao lado daquele sujeito, acompanhando passo a passo de sua saga.

O longa conta com ótimos trabalhos de desenho de som e mixagem, principalmente nos momentos em que busca retratar a grandiosidade quase monstruosa do trabalho em uma fábrica. A trilha sonora também é importante elemento. Se começamos com uma canção em inglês, que é prefeita para a cena citada acima – afinal é um cenário quase estrangeiro -, a obra segue com belas canções da música popular brasileira. É difícil não se tocar ao som de “Três Apitos”, clássico de Noel Rosa aqui interpretado por Maria Bethânia, que fala justamente do trabalho em uma fábrica e a espera pelo amor. Como Cristiano se muda inúmeras vezes de região, o filme também possui elementos de road movie. E nada melhor para transmitir o sentimento de uma estrada mineira do que Renato Teixeira e sua “Raízes”.

As canções supracitadas são apresentadas com gravações originais, mas Arábia também dá a voz a seus personagens, que são vistos em um momentos de descontração cantando “Cowboy fora da Lei”, de Raul Seixas. Em outra cena, temos um senhor cantando “Marina”, de Dorival Caymmi. Esta sequência em particular é uma das mais tocantes, mostrando a força da canção e da imagem mesmo diante de um claro desafino. A beleza está na imperfeição. E isso vale para toda a obra.

Ainda que fale muito por alto sobre sindicalismo, o filme não levanta bandeiras. Cristiano é um homem comum, que muitas vezes sofre com uma inércia daqueles que já estão acostumados a serem explorados. No final das contas, Arábia acaba sendo uma obra sobre a defesa do homem simples e trabalhador, do brasileiro violado todos os dias por um sistema opressor. Neste sentido, valoriza-se o tom naturalista de muitos dos diálogos do filme. É impossível não se divertir com Cristiano e um caminhoneiro que conhece discutindo sobre as melhores e piores coisas para se carregar.

Além dos personagens já citados, o filme conta com um protagonista extra: Minas Gerais. A questão do espaço é trabalhada de forma muito interessante, com o estado surgindo como se fosse um grande país. Cristiano em momento algum sai de MG, embora pareça transitar por um país inteiro.

Oferecendo uma reflexão inquietante e uma reviravolta extraordinária no que diz respeito à empatia, o filme se encerra com uma tela preta que parece durar minutos. Por mais que sejam apenas alguns segundos além do normal, toda aquela vastidão escura é o bastante para o espectador se prender numa reflexão sobre o impactante desfecho. Uma obra verdadeiramente especial.

 

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