As Boas Maneiras

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por Rodrigo Torres

O cinema de Marco Dutra e Juliana Rojas não é fácil, não é simples, e se manifesta com um profundo respeito pela linguagem. Sua gana de explorar as possibilidades da sétima arte é latente — o que por isso só já os torna dignos de todo crédito e atenção. Após diluir sua paixão pelo terror em projetos solos com maior influência de outros gêneros, como o musical cômico Sinfonia da Necrópole e o thriller dramático O Silêncio do Céu, a dupla retoma o horror social de Trabalhar Cansa em seu projeto mais novo projeto; que é mais ousado, mais complexo e, por vezes, menos coeso.

As Boas Maneiras - Imagem: Divulgação
As Boas Maneiras – Imagem: Divulgação

As Boas Maneiras é um filme em duas partes, com um título que atua de maneira intrincada em cada uma delas. Na primeira, reflete a etiqueta social que tanto falta à empregada Clara (Isabél Zuaa, espantosa) — um pressuposto elitista em que a discriminação de classe incorpora o racismo —, como à patroa Ana (Marjorie Estiano): uma jovem isolada por família e amigos por, abandonando as “boas maneiras”, engravidar fora do noivado. Como numa equação, o lapso mútuo as unirá na consagração de uma nova quebra de protocolo: um romance lésbico entre a patroa branca e rica e a emprega preta e pobre.

Subvertendo a lógica consagrada pelo pai do horror social George A. Romero, em que um evento incrível como o apocalipse zumbi servia para explicitar os verdadeiros males da humanidade (o preconceito, a intolerância etc), o cinema de Rojas e Dutra adota a via inversa e materializa as agruras da sociedade; seus demônios. Assim, se em Trabalhar Cansa é a vida urbana extenuante que dá vazão ao desconhecido (e ao seu suspense psicológico), a fábula de horror de As Boas Maneiras nasce da relação carnal entre um padre e uma adúltera. A distância entre ser humano (viver segundo as boas maneiras) e virar um monstro, um lobisomem, é o pecado.

Essa proposta sofisticada — tão importante no Brasil de 2017 — se desenvolve com um ritmo próprio, por vezes nada agradável (a trilha eventualmente faz falta), e o filme soa um tanto longo. Porém, a construção minuciosa de As Boas Maneiras transforma a relação de servidão de Clara a Ana em um romance comovente e convincente dentro da proposta absurda do longa. Além desse amor imensurável tornar crível a transição para sua segunda metade, traça um panorama dilacerante sobre o comportamento do negro na sociedade, em que a abnegação irrestrita segue a rota contrária do reconhecimento de seu valor.

Além dessa articulação temática invejável, Rojas e Dutra constroem sequências de puro deleite visual quando, combinando o urbano e a fantasia, prédios modernos rasgam um céu expressionista, quase gótico, banhado pela Lua cheia. E as cores são um espatáculo à parte: o azul que reflete a calma é predominante na casa da sonâmbula; o laranja (juventude) e o violeta (morte) tomam a tela quando Joel (Miguel Lobo; sobrenome que reflete o personagem e o físico) se rebela e faz sua primeira vítima. E em uma simples passagem de tempo, que enfatiza o aumento de plantas no exterior e no interior da casa, os diretores ilustram a preocupação de Clara em tornar seu lar acolhedor como uma floresta para o seu menino lobo.

Apesar de habilidosos e versáteis, Juliana Rojas e Marco Dutra vacilam no sincretismo de seus muitos gêneros. Enquanto a estranheza de um lobisomem em CGI grotesco no shopping ou pelas ruas de uma capital brasileira representam um choque entre a ambição criativa e a limitação de orçamento (algo compreensível), as cenas musicais destoam sem necessidade. Mas até que essa falta de boas maneiras realça a revolta de Joel na segunda parte do filme: uma busca pela origem e pela natureza que nega as formalidades.

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