Baronesa

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por Bruno Carmelo

Quando o curador do festival Olhar de Cinema, o cineasta Aly Muritiba, apresentou este filme ao público, ele ressaltou a importância do retrato das favelas por um prisma feminino, já que as comunidades costumam ser associadas à masculinidade. Este é um ponto de partida interessante: Baronesa é um projeto sobre mulheres, dirigido, roteirizado e produzido por mulheres. Este fator talvez não traga nenhum “olhar feminino” ao conjunto (eufemismo normalmente associado à delicadeza), porém permite a representatividade de uma parcela mal representada no cinema e na sociedade de modo geral.


Baronesa - Imagem: Divulgação Baronesa – Imagem: Divulgação

As minorias constituem o foco deste filme politizado, embora não partidário. A câmera da diretora Juliana Antunes segue a rotina de duas figuras femininas fortes de Vila Mariquinhas, na região de Belo Horizonte: Andreia e Leidiane. A primeira junta dinheiro para construir uma casa em outra favela, a Baronesa, onde teria uma vida mais pacífica. (Bela escolha do título, aliás, emprestando nobreza às protagonistas). A segunda cuida dos filhos pequenos com dificuldades. Os homens estão convenientemente ausentes: nenhuma delas conta com a ajuda dos pais das crianças, nem de seus próprios pais ou irmãos. A dupla recebe a visita do único amigo homem, que flerta com as duas, mas sem real convicção. A brincadeira faz parte da dinâmica visivelmente controlada pelas mulheres.

O projeto impressiona pela naturalidade com que as personagens agem diante da câmera. Na fronteira entre a ficção e o documentário, testemunhamos pessoas reais interpretando uma versão de si mesmas. Algumas situações parecem totalmente espontâneas (a conversa no salão de cabeleireiro), outras parecem de certo modo induzidas pela direção ou reproduzidas para a câmera (o tiroteio, a brincadeira com um revólver). É difícil saber em que medida Antunes influenciou a realidade à sua frente, mas talvez essa distinção não importe. O filme se destaca pela capacidade ímpar de debater diversos temas importantes sem tabus nem idealizações.

Andreia e Leidiane falam sobre posições sexuais, masturbação, empregos, violência. Elas refletem sobre o passado e o futuro, misturando reflexões densas com outras despretensiosas. A câmera, colada às personagens, está pronta para captar qualquer situação que se apresente, como se não estabelecesse hierarquias. É esta abertura ao acaso que permite uma representação tão realista das casas, das roupas, dos tempos de fala e da gestualidade. Qualquer ideia de fragilidade feminina é abandonada diante dessas mulheres independentes que, sem reconhecimento social, trabalham em empregos precários e criam crianças sozinhas.

O resultado, costurado em montagem ágil, impressiona pela combinação de qualidades frequentemente antagônicas: Baronesa constitui ao mesmo tempo um filme leve, divertido, mas capaz de debater questões seríssimas como o estupro e os assassinatos nas favelas. Ele analisa seus temas por vias sociais, psicológicas, políticas e econômicas, sem parecer pedagógico. Além disso, apresenta méritos cinematográficos notáveis (os belos enquadramentos, o trabalho limpo de som direto) mantendo a impressão de autenticidade e urgência.

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