Benzinho

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por Taiani Mendes

Após destrinchar a dura rotina de uma atriz em busca da grande oportunidade de sua vida em Riscado, Karine Teles e Gustavo Pizzi voltam a unir forças em prol do protagonismo feminino em Benzinho. Enquanto a relação da mulher com seu trabalho orientava o premiado longa-metragem de 2011, desta vez o norte são as interações familiares. Atriz principal e roteirista, Karine interpreta Irene, mãe de quatro, mas não definida apenas por isso, que precisa encarar a repentina mudança do filho mais velho para a Europa em menos de um mês.

Fernando (Konstantinos Sarris) é seu benzinho, assim como o são Rodrigo (Luan Teles) e os gêmeos Fabiano (Arthur Teles Pizzi) e Matheus (Francisco Teles Pizzi), e o baque da notícia endurece imediatamente a expressão de Irene, que passará os próximos dias – ou minutos, considerando o filme – abafando a ansiedade com seus afazeres, como se não tratando da partida, ela deixasse de ser iminente. Os ruídos, no entanto, explicitam que Irene é uma bomba prestes a implodir, assim como a casa em que vive a família está prestes a cair.

O diretor Pizzi não é discreto na metáfora envolvendo as propriedades e a situação dos personagens. Além do lar em Petrópolis repleto de infiltração e cuja porta não abre, obrigando a saída pela janela, que Irene se recusa a deixar, apesar de já existir uma substituta em construção no mesmo terreno; há uma casa de praia em Araruama, cheia de memórias, que ela não aceita vender. O apego é real, assim como o medo dessa mulher do que a reserva o futuro desconhecido, o corte verdadeiro do cordão umbilical.

Em determinado plano Irene está ao lado de um pequeno cartaz em que se lê “The falling into a vacuum signals the abandonment of the mother” (A queda num vácuo sinaliza o abandono da mãe), frase da obra I Am Afraid (Eu Tenho Medo), de Louise Bourgeois. E diferentemente do sentido original, a leitura em Benzinho é da mãe ameaçada de cair num vácuo por se sentir abandonada. É esse o sentimento que a afasta da felicidade que deveria sentir pela conquista do herdeiro, goleiro de handebol.

Muito se fala sobre a interação pai e filho, geralmente marcada por ligação profunda ou terríveis mágoas, mas entre mãe e filho também existem especificidades envolvendo posse e enorme preocupação, orgulho e ciúme. Criar tem o complicador de querer estar junto e ver o rebento voar independente e Benzinho retrata bem esta mãe, mas não tanto suas relações. É estranho que ela não invista em mais momentos próximos com o menino que está prestes a ir embora e pelos diálogos cheios de novidades que ela tem com o marido (Otávio Müller) nas ruas, é surreal que eles vivam sobre o mesmo teto e estejam juntos há anos.

A dinâmica dos irmãos, por outro lado, é algo que funciona muito bem, assim como o relacionamento de Irene com Sônia (Adriana Esteves, à sombra e ainda assim marcante), e o complicado núcleo familiar desta. Com rompantes e frases típicas da maternidade em qualquer cidade, estado ou país e estrelando planos fechados que dão tempo ao surgimento de expressões faciais indisfarçáveis, Karine obviamente brilha demais, mas uma das forças de Benzinho é o elenco que se comporta como time, extremamente entrosado na alegria e nas brigas, em enquadramentos que privilegiam a junção de todos em cena. O fato dos caçulas serem filhos de Karine e Gustavo, e Luan ser sobrinho da atriz, certamente ajudou, mas é mérito da equipe a construção de uma família fluminense tão verdadeira, que, pela corrida contra o tempo, Kombi, peculiaridades, estilo de fotografia, mistura de gêneros e leveza mesmo tratando de temas duros, faz lembrar Pequena Miss Sunshine.

“Como a gente vai torcer cheio de coisa?” é o argumento que Irene usa para que os filhos deixem alguns brinquedos em casa e, trocando umas letrinhas, é possível chegar ao “Como a gente vai sofrer cheio de coisa?”, que dá conta da multiplicidade de compromissos, acontecimentos e demandas que acabam tirando um pouco o foco e o tempo da inevitável despedida entre mãe e filho. A vida continua.

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