Comboio de Sal e Açúcar

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por Taiani Mendes

Cineasta gaúcho radicado em Moçambique, Licinio Azevedo continua sua investigação de aspectos sociopolíticos e culturais do país africano em Comboio de Sal e Açúcar. Adaptação de romance escrito pelo próprio Licinio, o drama volta à década de 1980 para narrar um conto da guerra civil que assolou o país entre 1977 e 1992. Com ambição maior do que a capacidade de execução e certa falta de foco, o realizador entrega uma obra instável sobre seus abundantes objetivos e tópicos, demonstrando óbvia dificuldade em transpor as camadas da trama dos livros para a tela.

Comboio de Sal e Açúcar - Imagem: Divulgação
Comboio de Sal e Açúcar – Imagem: Divulgação

Os protagonistas são Rosa (Melanie de Vales Rafael) e Taiar (Matamba Joaquim), dois viajantes do lotado comboio que cruza o país rumo à fronteira com Malawi. Vários dos passageiros têm o peculiar intento, citado na abertura do filme, de trocar sal por açúcar na nação vizinha, mas não é o caso do casal principal. Ela é uma enfermeira mudando de local de trabalho e ele um dos militares responsáveis pela proteção dos trens durante a jornada, ameaçada por sabotadores rebeldes.

“Diferentões do rolê”, Rosa esperançosa por não estar fugindo do país, nem correndo atrás de negócios; Taiar por representar rara honradez num exército machista, desrespeitoso, criminoso e soberbo; os dois desenvolvem uma previsível relação romântica que de modo geral resulta deslocada e fria.

Completamente anticlimático, Comboio de Sal e Açúcar dá a sensação de um trenzinho de criança que só faz andar em círculos, preso a um cansativo esquema de repetição de situações que vão se agravando com o avançar do percurso. O “inimigo” não é caracterizado e o conflito acaba polarizado na disputa de poder imaterial de dois líderes místicos – o supersticioso comandante Sete Maneiras (António Nipita), à frente dos fardados, e Xipoco, cabeça dos rebeldes, que segundo lendas se transforma em macaco. Ampliando o panorama religioso, um maquinista fervorosamente cristão também ganha destaque.

Assim como falta surpresa no desenvolvimento do romance central, é fácil prever os trágicos acontecimentos relacionados aos personagens que os rodeiam, muitos desde a primeira aparição em cena. Licinio, afinal, sabe do que quer falar e se aproxima, em compasso de espera e sem muitas nuances, dos temas necessários – colonialismo, misticismo, abuso militar, relação com antepassados, etc –, mas não chega a montar uma narrativa madura que dê conta da situação representada e resulta raso em questões econômicas e políticas. A cartela que abre o longa-metragem explicando o contexto em breves linhas diz o que todas as sequências a seguir falham miseravelmente em alcançar e não é assim que se faz cinema.

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