Ex-Pajé

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por Bruno Carmelo

No início, o documentário brasileiro explica a noção de etnocídio, ou seja, o extermínio da cultura de um povo, ao invés de seu corpo. Mesmo que o ataque não tire a vida, ele tira a identidade. Esta é a porta de entrada para compreender a vida dos índios Pater Saruí, que viviam isolados no meio da Amazônia. Hoje, a pequena comunidade usa roupas comuns ao homem branco, tem igrejas evangélicas, Internet, e recebe a visita de antropólogos europeus. Em simples um corte da montagem, descobrimos as transformações do vilarejo, passando do contato exclusivo com a natureza ao convívio com a tecnologia contemporânea.

Ex Pajé- Imagem: Divulgação
Ex Pajé- Imagem: Divulgação

Seria fácil o projeto apelar para o puritanismo condescendente, afirmando que aquela comunidade vivia melhor com os seus hábitos tradicionais, e que de certa forma, foi aculturada pelo contato com o homem branco. Felizmente, o diretor Luiz Bolognesi enxerga a cultura como uma noção dinâmica, e jamais ousa ditar aos índios o que seria melhor para eles. Assumindo a sua posição de estrangeiro – é importante lembrar que os imigrantes neste país somos nós, descendentes diretos dos portugueses – o cineasta deixa que os índios retratem por si próprios como se sentem em relação aos medicamentos farmacêuticos, ao Facebook, aos eletrodomésticos.

Uma bela cena resume esta abordagem: enquanto o pastor explica aos índios que os corações deles são vazios sem Deus, o protagonista Perpera Saruí se senta à porta, vestindo uma calça social e camisa branca, de costas para o pregador, admirando a natureza distante. Ele certamente ouve as palavras religiosas, mas parece resignado a adentrar o local por completo. Perpera relata em voz off que era considerado um grande xamã, até o pastor ensinar a todos que xamãs vão para o inferno. Por isso, precisou frequentar a Igreja, da qual não gosta muito, na intenção de ser aceito novamente em sua comunidade. Este relato poderia vir repleto de indignação, mas aparece impregnado de melancolia.

Bolognesi oferece uma sucessão de cenas cujo discurso silencioso torna-se muito mais potente do que qualquer depoimento às câmeras ou letreiro explicativo. O momento com Perpera e seu filho recebendo a tese de um antropólogo francês, mas sem poder ler o conteúdo, diz muito sobre a comunicação e a transformação dos índios em objeto, ao invés de sujeito. Ex-Pajé faz o possível para deixar com que falem por si mesmos, ditem o ritmo do filme à sua maneira, a exemplo da longa conversa às margens do rio, belissimamente emoldurada pelas árvores. Em outros momentos, assistimos à medicina institucional permitindo a sobrevida de uma índia doente, e as redes sociais servindo aos Pater Saruí para denunciar o desflorestamento.

Talvez por preocupação estética, ou pela vontade de retratar o ponto de vista dos índios, o documentário recorre a ferramentas típicas da ficção – uma montagem paralela durante a doença de Kabena Cinta Larga, planos de detalhe da tese enquanto é lida, enquadramentos calculados demais, antecipados, como a caminhada do pajé vestindo trajes de homem religioso no meio da floresta. Certamente houve algum tipo de representação, ou repetição dos gestos típicos para o olhar da câmera. Estes recursos não eliminam a veracidade do projeto, apenas demonstram que o diretor jamais se esconde por trás de uma falsa objetividade, assumindo seu ponto de vista e sua presença naquele local. Ex-Pajé reconhece a sua função de representar uma realidade, ao invés de apreender a cultura alheia.

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