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Lugares entre lugares

Há sempre um lugar das coisas. Poderia nos parecer FELIZ essa determinação, mas o processo é inverso. A ideia metafórica de estar em algum lugar se transpassou na contemporaneidade. Percebe-se o corpo, o próprio lugar dos objetos e dos sujeitos em algum lugar, entre lugares. O aqui e ali, não são mais direções plausiveis para encontro da subjetividade e da identidade. Exemplo máximo disso é o ciberespaço. Porém, esse processo parece ser apenas de ordem virtual, ou seja, não nos influênciaria no mundo real. Entretanto, a mensuração desse processo é densa e constroe outros olhares sobre o estar do aqui e do alí.

O sujeito é fractal; é perene, é quase obsoleto, segundo Deleuze[1] e Derrida[2]. David Le Breton[3] afirma que cientistas biotecnológicos se consideram DEUSES, ressignificando as figuras emblemáticas e proféticas – neoarautos da fé na contemporaneidade. A contemporaneidade proporciona um ecossistema  em que começo, meio e fim estão caminhando para a hibridização e, as formas de pensar, criar instituições e de eclodir políticas, sejam elas no intuito do “desenvolvimento”, do controle e virgilância já não são eficazes. E os terrenos anteriores da produção do discurso são necrosados.

Analisemos a partir desses argumentos a consolidação de políticas públicas, formação de federações e entidades coletivas atuais. O que sobrevive nesse caos da subjetividade e de eus? Percebe-se que a formação dessas instituições ou das suas ações são indiscutivelmente produção de um visão pessoal de mundo. E os não-lugares de Marc Auge[4]? E a crise de identidade? E o caos do sujeito? E o corpo obsoleto?[vide post anteriores]. Há algumas formas de consolidação desses organismos – instituições e ações – que não sofreram modificações e não estão interessadas em participar dos processos da contemporaneidade. Contemporaneidade que contextualiza em tempo real e dinâmico toda uma produção coletiva de informação e conhecimento.

As políticas públicas de ordem federal, estadual e municipal de teatro e dança [artes em geral] cooperam para uma dinâmica de “mensalidade” e de “cala a boca”. As esferas podem discutir formas de criação de organismos autômonos de consolidação de ferramentas e sistemas para criação e sobrevivência dos artistas brasileiros, mas as medidas tomadas são irrisorias. Vias de acessos são criadas? Quem propõe o que? Para quem? Quantos? Por favor, onde estão?

São Paulo tem um PIB estrastoférico; politicas públicas de teatro e dança são realidades no estado e munipicio, mas nao diferem do sistema entre aspas no começo do paragrafo anterior. Idem Manaus, Minas Gerais, Ceara, Bahia. Idem Rondônia. Desculpe. Lá não existe. Não tem nem Teatro Estadual. São realidades e, naturalmente, confrontos.

A formação de federações não são “lugares” específicos que fogem de alguma forma desses argumentos. Talvez, sejam o lugar do contrário, o da procriação de novos rumos. Mas isso não acontece por uma deselegante situação. O sujeito é levado a desacreditar qualquer obrigação que possa parecer coletiva, organizacional e colaborativa. Assistimos uma politica pública represetada pela produção de festivais, de temporadas e de editais. Uma triade significativa para um lugar, mas cria um encantamento que cega qualquer um artista. Um “senta lá, Claudia” literal. Os entre aspas lá estão e de lá não sairão, porque entendem  o regime federal, nacional e municipal que isso seja politica pública elevada a máxima potência. Mas, digo, que a metástase desse sistema do [“aspas”] já enraizou-se à ordem nanométrica.

Quem são os culpados? As artes, diferente de outros ramos, não se asseguram em um sitema de mercado. Não somos autônomos, viveremos até meados da nossa aponsetadoria  (aos 60 anos para mulheres e 65 anos para homens) com uma previdência pública sendo alimentada por nós. Os 2020, 2030 e 2040 já são datas previstas para o nosso envelhecimento. O envelhecimento do corpo obsoleto! O que isso vai nos arrematar?

Nada temos. Quero dizer, temos, sim. Os coletivos culturais são os organismos mais oxigenados desse processo opressor no qual estamos inseridos em graus e colaturas diversas. Os coletivos, ententendo ou não a crise do sujeito e da sua subjetividade, os lugares não-lugares e os entre lugares, permitem um florescer organizacinal, politico colaborativo e persistente que dialogam com a produção democrática de conhecimento no ciberespaço.

Deixar o sujeito e pensar mais no coletivo.

Francis Madson é ator, performer,  artista de dança, dramaturgo e diretor. 

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