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O gelo seco do teatro pós-dramático

Clayton Nobre
Essa não é uma apresentação do teatro pós-dramático, cunhando por Hans-Thies Lehmann em seu livro lançado no Brasil em 2007. Para se travar uma discussão sobre o assunto, eu sugiro uma leitura do livro e o estímulo ao debate nos corredores e fóruns de discussão. Aliás, esse é o tema que vem pautando conversas e aulas no Brasil inteiro e seria interessante entrarmos nesse circuito.
O que proponho é uma postura crítica a quem se debruça sobre o teatro pós-dramático, ou a quem começa a manifestar interesse, mas principalmente àqueles que veneram com olhos apaixonados, por vezes cegos e anestesiados pela falta de discussão e debate.
Lehmann cunha sua teoria pós-dramática a partir do distanciamento, ou de uma reformulação, do conceito tradicional do drama burguês de Peter Szondi. Lehmann traz a fábula como substituição ao conceito de narrativa. O drama seria tudo o que “obedece ao primado do texto e preserva as categorias de imitação e ação”, na fala de Silvia Fernandes, uma das principais estudiosas do assunto. Partindo, então, da teoria lehmanniana, o que se chama de teatro pós-dramático, em oposição ao pós-moderno, seria uma outra lógica ao drama burguês, um novo teatro que dá forma a uma resistência à sociedade do espetáculo. Bem, não era essa a função do teatro épico?
Vou trazer à conversa a professora Iná Camargo Costa, em debate que fez junto com Paulo Arantes, em um seminário da II Trupe de Choque ocorrido em setembro de 2009. Deparei-me com o vídeo por intermédio de Selma Bustamante, diretora do meu grupo Baião de Dois. Eu recomendo ver a palestra inteira, obedecendo, obviamente, à paciência que a internet manauara nos reserva.
Para Iná, ao esvaziar o conceito de drama de Peter Szondi, o próprio conceito de teatro pós-dramático do Lehmann ficaria inútil. O propósito desse esvaziamento, para o que seria uma desconstrução, é o cultivo de uma fumaça branca de gelo seco. “Isso tudo é um processo de quem não gosta de sofisma”, diz Iná. “O argumento pros sofismas, desde a Antiguidade, é uma boa maneira de eliminar as questões que interessam e atulhar a nossa cabeça, os livros e as cenas de inúmeras questões que não vão a lugar nenhum”. E complementa: “esse é um aspecto da elaboração do Lehmann, e acho que sei de onde ele exatamente arranca”.
Chamando o atual momento de pântano teórico, no qual estamos a milímetros de nos afogar, Iná acusa Lehmann de usurpador de conceitos. E para isso faz duras comparações com o stalinismo e a batalha pela velha ordem (a exemplo da Revolução de 1917, na Rússia, onde a social democracia lutou veementemente contra as bandeiras que se levantavam pelo proletariado – está no primeiro trecho do vídeo). Embasada na Linguagem de Heidegger e sectos como Derrida, o Lehmann seria, na verdade, um ingrediente da sociedade do espetáculo, em vez de seu crítico, retomando uma bandeira do combate ao teatro épico, por vezes esquecida. É uma provocação.
Clayton Nobre jornalista e ator

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Um Comentário

  1. O que temos neste aspecto é a defesa de uma teoria que busca, necessariamente, o retorno do Teatro épico brechtiano, tb dentro de uma vertente do materialismo histórico.Ainda bem que o crítico foi direto ao assunto: trata-se de uma luta por um Teatro que busca fugir do rótulo pequeno-burguês. Eu me pergunto onde estamos nisso tudo, pois Brecht hoje é BRODWAY, é nisso que vejo avanços em
    Lehmann, a inovação ultrapassou o período da guerra fria, e os que se baseavam em dicotomias direita e esquerda hoje estão perdidos, ou fingem muito bem a situação,pois são alocados com as benécies da estrutura “épica” universitária. “Vamos falar do proletariado, mas falo de dentro de minha piscina com minha bebida destilada e meu tv de plasma de última geração”. LEHMANN é essencial por tocar nesta ferida que teima em estar aberta: o escritor revolucionário do materialismo histórico, que vai muito bem, obrigado.

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