O Insulto

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Por: Renato Hermsdorff

O Insulto é a genealogia da cultura – tomando “cultura” pelo somatório de signos que orientam o comportamento de um povo. O filme é um estudo antropológico e sociológico – por vezes, até didático, o que é bom e ruim ao mesmo tempo – de como surge (ou pode surgir) um conflito, especificamente em uma região de tradições fortes e considerada especialmente tensa: o Oriente Médio. A partir de um “estudo de caso”, o longa mostra como uma faísca pode se converter em um incêndio. Ainda que contra toda a lógica.

O Insulto - Imagem: Divulgação
O Insulto – Imagem: Divulgação

A faísca, no caso, é uma calha. Ou a falta dela. Tony Hanna (Adel Karam) é um cristão fervoroso libanês que, sem instalar o cano em sua varanda, molha acidentalmente o palestino refugiado Yasser Abdallah Salameh (Kamel El Basha, vencedor do prêmio de melhor ator no Festival de Veneza), engenheiro responsável por uma obra na rua de Tony. Yasser, então, tenta convencê-lo a instalar o aparato e, com a recusa do outro, o faz por conta própria, atitude que é reprovada por Tony.

O incidente gera um xingamento, que evolui para uma (baita) humilhação, que cresce até chegar aos tribunais (é um “filme de tribunal”), que ganha a mídia, que incita o povo, que convoca o presidente, enfim, está aí o incêndio.

São situações absurdas, mas encadeadas de forma crível graças ao roteiro assinado pelo diretor Ziad Doueiri (O Atentado) – em parceria com Joelle Touma. A apresentação da trama é quase infantil – mas afinal não é “bobo” o estopim para o conflito? Ora pendendo para um lado do confronto político-religioso, ora cutucando o outro, o filme caminha numa linha tênue de defesa de paixões. Sendo parcial em momentos distintos, o resultado final é um desejoso e complexo equilíbrio.

Estruturado como um melodrama “clássico”, não raro Doueiri abusa da trilha no intuito de conduzir as emoções do espectador. E é nesse ponto, “emoções”, que o filme peca. Apesar de pontuado por sutilezas, L’insulte (no original) parece não confiar plenamente na delicadeza de suas metáforas e, como consequência, pesa a mão no drama (clichê) em alguns momentos. Isso, ou o diretor fez algumas concessões com a intenção de atingir um público (médio) mais amplo. Não à toa, a produção disputa o Oscar de melhor filme estrangeiro – a primeira do Líbano a conseguir o feito.

Nada que comprometa a experiência, no entanto. O Insulto é a (boa) lembrança de que a humanidade é feita de pessoas que têm mais em comum do que diferenças, propriamente.

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