O monopólio das fadas e o teatro na guerra dos sonhos | Casarão de Ideias
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O monopólio das fadas e o teatro na guerra dos sonhos

O monopólio das fadas e o teatro na guerra dos sonhos
 
 
 
Clayton Nobre
 
 
Quando digo que neste Natal eu prefiro ficar em casa vendo TV, longe dos que reservam os palcos manauaras natalinos de teatro, pareço um retrógrado com um discurso pseudorrevolucionário. A crítica ao “comercial” parece velha e já não ganha destaque nos comentários que se fazem hoje num mundo tomado pelo presente contínuo e pela circulação lucrativa. Você, que despreza bancar esse lucro, é um velho pseudointelectual que só enxerga o teatro no lugar culto das práticas minoritárias. A verdade é que nossos ouvidos já foram abstraídos e até agora não se entende muito as críticas feitas.
Imagine como está a opinião pública, então, daqueles pensadores que dedicam seus trabalhos no alerta de que estamos numa guerra, de que a sociedade inteira está sob o poder da mídia de forma sem precedentes. Minha proposta aqui é ponderar um pouquinho. Ora, não é tão difícil ver o estatuto da ficção, por exemplo, num lento desmoronamento. Verifiquei numa leitura a preocupação do antropólogo Marc Augé, em sua Guerra dos Sonhos. Ele chama a atenção para a liberação de uma forma transviada do imaginário com o desenvolvimento das tecnologias. “Seria uma catástrofe se constatássemos tarde demais que o real tornou-se ficção, e que, portanto, não existe mais ficção (só é fictício aquilo que se distingue do real)”, disse ele. Bem, mas corrobora com essa catástrofe o teatro de shopping que estou aqui criticando? E por que é tão nocivo para o nosso imaginário?
É a calma para discutir essas questões que falta nos debates em Manaus. (Faltam debates, na realidade). O imaginário parece vir da boca de todos aqueles que querem travar uma discussão sobre o assunto, e também é banal nas declarações de quem defende sua obra de arte. “Meu teatro provoca a imaginação”. Mas o que é isso, afinal? Pouco se elucubra sobre a mediação simbólica entre a obra e o espectador de forma a instigar o que seria nosso imaginário. De que imaginário estamos falando?
Sob o imaginário, falamos de imagem. E é nesse assunto que me debruço ultimamente; assunto que me instiga, me importuna, me emociona e servirá, neste post, como um argumento (de uma enorme lista) ao teatro que se perpetua em certos palcos. Se chamarmos os teóricos da imagem para a conversa, eles também vão falar aqui em guerra. A imagem aniquila e está em todos os lugares. Eu falo, você imagina. Eu escrevo cadeira, você imagina. Eu escrevo sexo, você imagina. Eu escrevo fada, você imagina, daí surgem fadas diversas, cada qual com seu imaginário. Essas são imagens próprias, invisíveis, na palavra dos teóricos. Endógenas, na teoria de Hans Belting. Eu escrevo inferno e, apesar de invisível e impalpável, todos imaginarão o inferno de Dante. Daí porque a imagem aniquila. Daí porque a tecnologia com que Augé se preocupa causaria uma catástrofe, tal qual vem causando a religião. A televisão, por exemplo, não trabalha com imagens invisíveis, interiores. Se ela mostra um inferno, não surgirão outros.
Por isso me apaixono pelo teatro e pareço brega quando digo que ele é transcendental. Ora, qualquer encenação provoca a imaginação, teatreiros. Mas o poder da comunicação simbólica é aqui subestimado por esse discurso banal e sem base. Evocar imagens é um ato mágico, diz Morin. Mas são com nossas imagens internas, próprias, e com o confronto com as imagens já estabelecidas, que participamos de uma experiência fora do nosso eixo tradicional de tempo e de espaço. Com essa transcendência, o teatro abre espaço para o jogo e se trabalha com uma percepção do público autônoma e autocriadora. Guattari tem o mesmo aflito: “as máquinas enunciadoras podem trabalhar tanto no sentido de um esmagamento uniformizador quanto na ressingularização libertadora da subjetividade individual e coletiva”. Os contos de fadas que conhecemos é um exemplo clássico. O teatro aqui tem nas mãos a possibilidade da transcendência, mas foge pela via da circulação lucrativa, pela imagem pronta, pela forma com que a televisão se apropria da realidade, pela imagem já incorporada na infância numa guerra injusta. Não é um aniquilamento?
P.S.: Com o perdão de mais uma citação, há um artigo muito legal (Podem as imagens devorar os corpos) de Norval Baitello Jr, a quem interessar uma segunda leitura sobre o estudo das imagens. Está na revista Sala Preta, da USP: http://tinyurl.com/287hzkj
Clayton Nobre é ator e jornalista.

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2 Comentários

  1. Olá senhores e senhoras do casarão de ideias. Iniciativa louvável, especialmene pelos textos para reflexão, nós que somos tão carentes delas.Estamos vencendo grandes obstáculos, obrigado ao casarão e aos autores dos textos até aqui postados, de um valor inquestionável para nossa arte teatral. JORGE BANDEIRA

  2. Muito obrigado, Jorge. Queremos o debate. Sabemos que podemos contar com pessoas como você. Venha sempre.

    Vitor Lima, editor

Trackbacks/Pingbacks

  1. Artistas | Casarão de Ideias - […] principalmente daquelas produzidas pelo homem do final do século XIX e XX. Aproveitando o  post de Clayton Nobre falando…

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