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O pensamento massacrado

O pensamento massacrado
Denni Sales
A cultura de massa estabelece padrões muito estranhos para “consumo” no campo das artes, nunca consegui entender muito bem essa mania de limitar o pensamento justo onde ele poderia expandir-se e ganhar proporções mais eficazes.
Chegar ao grande público, sem dúvida, é um dos desafios mais constantes no fazer artístico principalmente hoje em dia, em que a arte se limita a tantos padrões e fórmulas; e a obrigação de já ser concebida com ares de sucesso. Trata-se de um desafio que ganha outras proporções, já que uma grande parcela de artistas quando chega ao grande público, geralmente é através dos trabalhos mais banais ou que exijem pouco do pensamento. Afinal, o próprio público exige isso.
Entramos, então, num ponto fundamental dessa “guerra” fria entre artista e público, arte e entretenimento. Embora complexos e relativos, esses pontos convergem para um caminho fundamental que é o ponto de partida para a produção e consumo.
O artista cada vez mais investe pouco na pesquisa e mais na fórmula, porque talvez seja o meio mais seguro, tanto por questões artísticas quanto por questões financeiras. Muito parecido com o texto de Chico Buarque (Roda Viva) em que o protagonista (um cantor) têm mudanças radicais no intuito de agradar o publico e atender seus empresários até ser massacrado e praticamente triturado pelo mercado.
O texto tem seus ecos ainda hoje, nosso cérebro ainda é consumido e massacrado pela necessidade empresarial imposta e alimentada de uma forma tão absurda, que hoje em dia, se encaixaria perfeitamente numa comédia pastelão.
A importância da pesquisa tanto teórica quanto prática é a parte mais fundamental de todo processo e não deve se restringir às primeiras idéias ou conceitos, ela deve ser algo que vá além dos limites que estabelecemos para nós mesmos e somente assim nos dará algo palpável e mais concreto.
Não confundir pesquisa teórica e prática com qualquer método de resultado imediato, porque ingenuidade à parte, sabemos que é um trabalho árduo, cansativo e de muitas perspectivas e resultados, talvez por isso mesmo chega até a assustar muitos “artistas”.
Há uma diferença em ver uma fórmula sendo executada no palco e uma massa mais consistente sendo moldada aos olhos do público, porque nem toda fórmula é consistente como pensam nossos “filósofos” empresários e muitos “fazedores” da arte cênica aqui na Cidade.
Apesar das lógicas do grande público, das empresas e do julgo limitado de certos órgãos públicos, que deveriam não ter tais limites básicos intelctuais provenientes dos primórdios dos anos 60, o grande desafio é o pensamento do artista, que não deve se render a isso.
Talvez isso pareça um pouco terrorista, mas é que olhando a arte por fora da perspectiva do entretenimento veremos que a importância dela não se limita à mediocridade do publico, dos empresários e a do próprio artista.
O pensamento é algo importante de ser estimulado, não pode ser ignorado ou estuprado de forma tão indigna por padrões alienantes que multiplicam-se nessa espécie de reflexo condicionado entre artista e público, ambos têm se bitolado num fluxo interminável e bastante lucrativo para quem ignora a arte como ferramenta do pensamento. 
Denni Sales é ator, dramaturgo, diretor e performer.

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Um Comentário

  1. Você levantou uma questão muito importante que acho interessante ser salientada: a tênue diferença entre você fazer uma arte chamada Teatro, e vender um produto para conseguir lucros.

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