O Processo

0
155

por Bruno Carmelo

Ao passar meses nos bastidores do Congresso Nacional, acompanhando ao vivo os trâmites que levaram ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff, a cineasta Maria Augusta Ramos assumiu um grande risco. Primeiro, por ser impossível o distanciamento em relação ao tema, e por não saber onde a história se concluiria. Afinal, os eventos de 2016 trazem consequências no Brasil até hoje, e as imagens daquela época adquiriram novo significado em 2018, com Michel Temer no poder, às vésperas de uma nova eleição presidencial (pelo menos, assim se espera). Existe uma diferença fundamental no ato de assistir hoje àqueles eventos captados “ao vivo”, conhecendo muito bem o desenlace.

O Processo - Imagem: Divulgação
O Processo – Imagem: Divulgação

Além disso, no momento polarizado que o país atravessa desde 2013, o projeto será facilmente instrumentalizado por uma parcela do público, que vai considerá-lo genial ou execrável apenas por seu posicionamento político. Este pode se tornar facilmente o “filme da Dilma”, embora discuta um sistema que ultrapassa amplamente a figura da ex-presidenta. Ou seja, ele pode efetuar um grande esforço de comunicação para pessoas que não estão interessadas em dialogar. É possível, no caso de filmes como este especificamente, pregar para convertidos, conversar apenas com as pessoas que já compartilham da tese de que o julgamento constituiu um golpe parlamentar concebido como retaliação pelas medidas de Dilma contrárias a grandes nomes do poder.

É importante avisar que Dilma Rousseff não é a personagem principal de O Processo. Figuras políticas como José Eduardo Cardozo, Gleisi Hoffmann, Lindbergh Farias e Janaína Paschoal, por exemplo, ocupam muito mais tempo de tela. Deste modo, Maria Augusta Ramos impede que o filme gire em torno de uma única personalidade. O roteiro dá um passo atrás e decide estudar o estado da nossa configuração política atual, para compreender de que maneira os eventos de 2016 puderam se produzir. Dilma é a conclusão de um mecanismo, não o seu meio. Antes disso, é preciso compreender a Lava Jato, a queda de Eduardo Cunha, o “grande pacto nacional, com o Supremo, com tudo”, o papel desempenhado por Aécio Neves, a pressão de Michel Temer, os votos dos congressistas “em nome da família, da minha esposa e do meu time de futebol” e muitos outros fatores. Estes episódios desfilam em tela, em ordem cronológica, com letreiros informativos.

A diretora não facilita a vida do espectador. Com 137 minutos de duração, o projeto é extenso, verborrágico, repleto de termos técnicos e jurídicos. Ao invés de se concentrar na histeria coletiva das ruas ou na condenação prévia da mídia hegemônica, Maria Augusta Ramos permanece nos corredores do Senado, escutando ambos os lados, vendo cada equipe discutir embargos infringentes, metas orçamentárias, emendas parlamentares, ajustes fiscais, porcentagens, datas, interpretações de leis etc. Não há cartelas com o nome dos políticos nem seus partidos: supõe-se que o espectador já conheça o posicionamento de Anastasia, Lewandowski, Kátia Abreu, Jandira Feghali, Requião, Rodrigo Maia etc.

O andamento é frio e racional: O Processo tenta desmontar um a um os argumentos legais apresentados para a destituição da presidenta. A própria Janaína Paschoal, fervorosa porta-voz da oposição, afirma que Dilma cairia pela vontade das ruas, e não pelas leis. O documentário visa demonstrar que, pelo ponto de vista jurídico, não houve crime de responsabilidade e, portanto, não houve motivo para o impeachment. Com o acúmulo de discussões, são raros os momentos de respiro além de cortes secos para uma tela preta, ou curtos inserts dos arredores do Planalto pela manhã.

A cineasta não busca grandes sacadas de montagem, nem a criação de efeitos poéticos, metafóricos, ou ainda a captação de imagens externas ao universo político. O espectador fica focado da primeira à última cena nos mesmos personagens, os mesmos corredores, criando uma exaustão pertinente ao circo de absurdos. A propósito, um político evoca “O Processo”, de Franz Kafka, no qual o personagem principal também é condenado sem crimes, num julgamento orquestrado e sem possibilidade de defesa justa.

Com este projeto, Maria Augusta Ramos não traz revelações bombásticas sobre os bastidores da política nacional, nem apresenta imagens esteticamente deslumbrantes. Sua preocupação se encontra na articulação de uma quantidade imensa de informações de modo lógico, claro, e capaz de retratar ambos os lados sem caricaturar a oposição – embora tenha um posicionamento crítico evidente. Este é um cinema político assumido como tal, de vocação progressiva, libertária, de esquerda. Acima de tudo, é um cinema que acredita no valor da argumentação, elemento cada vez mais raro na sociedade e na mídia atualmente.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here