OH LUCY!

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Por Bruno Carmelo

Setsuko (Shinobu Terajima) é uma mulher deprimida. Ela não tem muitos amigos nem um interesse amoroso, e detesta o escritório onde trabalha, cheio de pessoas falsas e bajuladoras. A personagem na faixa dos 40 anos de idade vive dentro de um minúsculo apartamento onde as roupas e caixas formam pilhas intermináveis. No trem, ela vê uma pessoa se suicidar, mas o fato não choca os habitantes acostumados a tragédias do tipo. Até o dia em que as aulas de inglês lhe caem quase literalmente do céu. Uma sobrinha oferece o curso, e por tédio, Setsuko aceita. Quando chega ao prédio onde ocorrem as aulas, uma câmera aérea sugere um olhar divino sobre a protagonista. O destino bate à porta.

As aulas de inglês constituem o oposto de sua rotina. Na sala com ares de prostíbulo, um professor amável sorri para ela, abraça-a o tempo todo, coloca uma peruca loira em sua cabeça e lhe dá uma nova identidade: Lucy. Para o pouco ortodoxo John (Josh Hartnett), o mais importante sobre a língua inglesa são os apertos de mão, abraços e saudações informais. Isso pode soar limitado, porém serve para despertar o desejo de fuga da protagonista. O roteiro se articula numa lógica de opostos: o Japão é a terra da frieza, da solidão e das tentativas de suicídio, enquanto os Estados Unidos representam a liberdade, o calor, a informalidade das relações. A prisão contra a liberdade. Setsuko, ou Lucy, não pensa duas vezes e parte para a Califórnia em busca do professor que subitamente volta ao seu país.

 

Oh Lucy! está sempre um passo além do realismo. As aulas de inglês não parecem nada verossímeis, assim como a vida de carros, drogas e tatuagens dos Estados Unidos remete a uma idealização. A diretora Atsuko Hirayanagi trabalha abertamente com estereótipos, além de uma construção acessória do roteiro: a irmã rabugenta (Kaho Minami) de Setsuko serve de contraste para ela, o tatuador aparece no momento preciso em que ela terá a vontade de fazer uma tatuagem, a namorada de John, Mika (Shioli Kutsuna), some na hora exata em que a protagonista está prestes a declarar o seu amor. O mundo é feito para a protagonista: todas as pessoas e fatos giram em torno dela. Enquanto isso, a música levemente cafona reforça o teor feel good obrigatório do subgênero indie, e a montagem trata de reforçar o óbvio: a irmã amarga é realmente amarga, a garota inconsequente é realmente inconsequente. Exceto pela protagonista, os demais personagens possuem uma característica só.

Este universo teatral funciona graças ao bom elenco. Shinobu Terajima confere um ar ausente e possivelmente impulsivo à personagem, essencial para compreender as suas atitudes extremas rumo à conclusão. Josh Hartnett desconstrói a imagem de galã com um corpo despojado e ar de moleque pouco confiável. Koji Yakusho, um dos melhores atores japoneses em atividade, aceita um pequeno papel de coadjuvante de luxo, e rouba a cena nos poucos momentos em que aparece. Se a trama investisse mais na aproximação entre Komori e Setsuko, o filme ganharia uma profundidade interessante. No entanto, a gravidade parece ser o principal elemento que a cineasta deseja evitar.

A comédia dramática deve agradar muitos espectadores pelo road movie de pessoas carinhosamente patéticas, que acabam fazendo novos amigos e conhecendo mais sobre si mesmas na viagem. Não se trata de uma jornada muito inventiva ou sutil, mas funciona dentro de um cinema de ternura por tipos excêntricos. Mesmo assim, a transformação de Setsuko/Lucy da carência à loucura beira a misoginia, pela ideia de que toda mulher guarda dentro de si um grão de histeria, prestes a explodir diante da primeira desilusão amorosa. Essa leitura é corroborada pelo comportamento equivalente da irmã e da sobrinha quando rompem seus relacionamentos. As mulheres não são apenas tipos misteriosos e complexos, mas também frágeis e instáveis emocionalmente. Neste aspecto, Oh Lucy! combina sensibilidade e condescendência.

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