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Padecendo na sétima arte

Padecendo na sétima arte
Denni Sales
Me corrijam se eu estiver totalmente errado, mas pelo que consta em Manaus temos atualmente quatro empresas responsáveis pelas salas de cinema e distribuição de filmes na cidade, enquanto algumas possuem até 8 salas, outras somam 6 salas, somando esses números, o resultado é até animador se levarmos em conta que num passado não muito distante tínhamos apenas duas empresas, sem falar nos anos que existiam apenas uma. O fato é que mesmo com esse crescente número de salas de exibição ainda estamos de certa forma como no tempo em que havia apenas os cinemas no centro da cidade, que eram ótimos e eram também uma opção, continuam sendo uma opção, porém para um publico que procura algo além da sétima arte, já que todos os cinemas do centro da cidade exibem hoje apenas filmes pornôs. 
As quatro únicas empresas que atuam na cidade exibem praticamente a mesma programação. A variedade está apenas nos horários das sessões ou relativamente em algum filme fora do eixo comercial que é encaixado na programação, sempre em algum horário não muito acessível. Se compararmos a programação destas empresas com a de outras cidades do Pais, talvez comece em Manaus uma epidemia de complexo de inferioridade para quem gosta de cinema.
É o sentimento que tenho sempre que faço isso, por puro sadomasoquismo, principalmente quando visito outra cidade e tenho oportunidade de conferir as outras programações.
O que parece é que ou as empresas duvidam muito da nossa inteligência ou somos apenas uma cesta onde elas despejam todo o lixo.
É um assunto um tanto complexo, já que por um lado existe a posição das empresas que precisam lucrar, do outro a posição de quem tá morrendo de fome de cinema de verdade, e por outro a grande massa, que, dizem as reflexões mais antigas, contentam-se com qualquer coisa. Em parte é uma verdade. Em outra, penso que o caso é que, no contexto de Manaus, as pessoas vão ao cinema, querem ver coisa boa, mas na falta de opção assistem ao que tem.
Apesar da era digital facilitar bastante o acesso a filmes, a pirataria mais ainda, as salas de cinema ainda continuam sendo uma opção bastante procurada por vários fatores que variam desde o puro entretenimento à simples paixão pela tela grande.
Que me desculpem os apreciadores dos download grátis (confesso que baixo os meus) e dos piratas (confesso que compro alguns), mas tem determinados filmes que precisam ser vistos na tela grande. Lógico, não é o caso de muitas das opções que nos são oferecidas aqui na cidade pelas redes de cinema. Às vezes tenho a sensação de que as produções cinematográficas que merecem a tela grande e publico estão mofando para poucos interessados em sites da web, enquanto as produções mais indignas às vezes passam meses em cartaz e até em cinco salas diferentes.
Sei que para as empresas precisam ter o seu lucro. Nada contra, todos precisam ganhar seu dinheiro, mas a exemplo de outras cidades onde tanto os filmes mais comerciais quanto os alternativos e de arte tem um público e possibilitam bilheteria, já está na hora de um respeito maior ao público amazonense. Não custa nada, como diz aquela personagem enfadonha, daquele programa humorístico “engraçadíssimo”, daquela rede de TV que tem feito um mal danado ao cinema brasileiro ao produzir um cinema pasteurizado que mais parece TV a cinema: “Tô pagando”… ou melhor “A gente tá pagando”.
Denni Sales é ator, diretor, dramaturgo e performer.

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3 Comentários

  1. Esse paradoxo é uma constante na nossa cidade, Denni. Enquanto temos uma já razoável salas de cinema ela se retringe ao público grande mas ao tempo pequeno em diversidade.
    Também defendo que os donos de cinema deveriam ousar aos poucos por novos gêneros de filmes. Além de lucrar eles são formadores de opinião. Mas essa ousadia deve ser coerente. Colocar uma sessão ás três horas da tarde de cinema alternativo, ou cult, pra mim é sacanagem. Se diminuir 2 sessões de Crepúsculo e destina-se pra outros filmes, em horários acessíveis, garanto que teriam público.
    Mas o medo de perder é muito grande e vamos continuar a assistir vampiros com indefinição sexual por muito tempo.

  2. Realmente, não me importaria que essa atitude começasse tímida – sendo eu o empresário, tomaria semelhante atitude. Mas começando essa atitude, cabe a nós encher essas salas e fazer valer à pena tal custo.

  3. Lembro que quando existia o saudoso CINE QUANON, do Leong, assistia solitário(eu e o projetista) a RUN, de Kurosawa, o Selavagem da Motocicleta e muitos filmes excelentes. Teve uma sessão que nem o projetista foi trabalhar, e tive que ir sem assistir ao Brazil, O filme, de Terry Gillam. Hoje, tá um pouco melhor, cheguei a assistir filmes de arte com 10 espectadores no studio 5. Acho que em 50 anos a coisa vai melhorar. É como a ponte sobre o Rio Negro, tem que ter paciência…

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