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Sobre a escuta como ato revolucionário na contemporaneidade

Sobre a escuta como ato revolucionário na contemporaneidade

Por Fabiano de Freitas

Rio, fevereiro de 2015. Nesse momento estou entrando em um dos estúdios da Rádio Nacional e da Rádio MEC, no centro do Rio de Janeiro, para uma gravação. Os tradicionais estúdios do Edifício A Noite, na Praça Mauá e do antigo prédio da Rádio MEC no Campo de Santana, já estão desativados há mais de 2 anos. Aqueles corredores assistiram a ascensão e o declínio de um gênero artístico que influenciou e influencia, até os dias de hoje, boa parte da cultura nacional, ou, pra ser mais específico, a cultura nacional de massa: o radioteatro.

Como falar sobre este simples ato, sob determinado ponto-de-vista tão extemporâneo, o de adentrar a um estúdio de rádio para, junto com atores, produtores e editores, gravar uma peça de radioteatro, sem parecer estar realizando um ato saudosista? No que ainda interessa um gênero pré-julgado morto e enterrado? É justamente sobre esse aspecto – a vida que pulsa no radioteatro enquanto linguagem na contemporaneidade, que estas próximas linhas pretendem refletir.

Mas, antes de tudo, cabe uma contextualização histórica. A Rádio Nacional e a Rádio Sociedade, posteriormente rebatizada como Rádio MEC, possuíram, durante décadas, núcleos ativos de radioteatro. Estes pólos de produção fizeram parte da história da dramaturgia no Brasil, com seus grandes sucessos ouvidos por público de todo o país. Artistas importantes para o cenário nacional como Paulo Gracindo, Dias Gomes, Janete Clair, Chico Anysio e alguns ainda em atividade como Fernanda Montenegro, para citar alguns poucos exemplos já que foram centenas de profissionais, passaram por estas rádios e foi delas que migrou para a TV (surgida apenas na década de 1950) a expertise da criação dramatúrgica. Ainda é da fonte folhetinesca, modelo experimentado exaustivamente no rádio, que bebe a telenovela, gênero que assume a condição de cultura de massa, influenciando a formação das mentalidades de todo o país, já há muitas décadas (e aqui sem necessariamente aprofundar-me no juízo de valor do quanto esta forma única e acachapante de consumo cultural vem carregada de valores discutíveis e, algumas vezes, nefastos). No contexto internacional não foi diferente e aqui nos bastará relembrar a experiência já mítica do cineasta Orson Welles em Guerra dos Mundos, peça de radioteatro levada ao ar em 1938 pela emissora CBS dos Estados Unidos. A proposta levada à cabo por Welles e encampada pela emissora, foi não anunciar tratar-se de uma peça de ficção, mas interromper a programação normal com o anúncio de que havia uma invasão extra-terrestre no estado de Nova Jersey. A falsa notícia era apenas o início de uma peça, obviamente ficional, de radioteatro, escrita por Welles e não só ajudou a CBS a superar a audiência da principal concorrente, a NBC, como em apenas uma hora espalhou pânico real em toda a Costa Leste dos Estados Unidos. Uma prova cabal não só do poder do rádio como veículo de comunicação, mas também do poder da própria ficção – claro, se realizada com a genialidade de um dos maiores criadores do mundo no século XX.

 

Na década de 1970, uma especificidade do contexto brasileiro fez com que o radioteatro perdesse sua força enquanto linguagem. No contexto internacional, grandes potências do setor de comunicação e entretenimento, como as rádios BBC, da Inglaterra, France Culture, da França e a alemã Deutsche Welle continuaram produzindo radiodramaturgia, como o fazem até os dias de hoje, em peças únicas e séries que continuam sendo sucessos de audiência com imenso potencial popular. Artistas como Samuel Beckett, Heiner Müller, Tom Stoppard, Harold Pinter, Julio Cortázar e outros grandes nomes ainda em atividade, como Valère Novarina (na França) e Martin Crimp e Anthony Neilson (na Grã-Bretanha), dramaturgos prestigiados na Europa, prosseguem na sua criação textual pra rádio porque, naqueles países, o rádio continuou desenvolvendo essa linguagem com excelência e assiduidade. Já no Brasil, a TV, ainda em formação, transformou o rádio, fazendo com que a potência que a Rádio Nacional representava na época, principalmente no desenvolvimento do gênero da radionovela e a Rádio MEC, em relação ao radioteatro, perdessem seus principais quadros artísticos. Nos corredores históricos destas emissoras, os artistas foram sendo substituídos exclusivamente por jornalistas e a programação de radiodramaturgia, apenas por música, notícias e futebol. Aqui só me retenho ao fenômeno histórico, não faz o menor sentido a criação de antagonismos entre linguagens e meios de comunicação, ao contrário, o que fez com que a radiodramaturgia sobrevivesse na Europa e nos Estados Unidos foi que nestes países foram resguardadas as singularidades destes gêneros.

 

É comum, portanto, e aqui volto ao meu trajeto inicial, o de acabar de adentrar os estúdios das Rádios MEC e Nacional para uma gravação, associar este ato corriqueiro à chamada Era de Ouro do Rádio: os trajes de gala, os programas de auditório, as transmissões ao vivo, os contra-regras produzindo sons artesanalmente. Ou seja, nossa referência de radioteatro no Brasil é dos anos 1950 – quando de fato produziu-se radioteatro até os anos 1980 -, e bastante saudosista. A pergunta mais comum que ouvimos é: ainda se faz isso? E neste sentido, sim, estamos imersos numa tarefa de resgate. Mas não da retomada do radioteatro como ele era feito, tampouco nos propomos a um exercício extemporâneo e saudosista. No melhor axioma hegeliano, levamos à cabo a ideia de incorporar, superando. Nossa experiência radioteatral no Brasil possui um hiato de décadas, não só sob o ponto-de-vista da criação dramatúrgica, mas também das condições de produção e técnicas. Não seria diferente em se tratando da recepção, inicialmente surpresa em relação à sobrevivência desta linguagem e, posteriormente, saudosista, quando ainda o público não se depara com a potencialidade criativa do radioteatro nos dias de hoje.

 

E é neste segundo ponto – a potência da escuta – que o radioteatro carrega intrinsicamente em si enquanto linguagem, que se foca toda a nossa empreitada de retomada. Voltemos aos exemplos internacionais citados: Beckett, Pinter, Heiner Müller – autores essenciais e referências para o que se entende por dramaturgia contemporânea no mundo todo. Estes autores alargaram as próprias possibilidades criativas do teatro a partir dos seus experimentos no campo da escrita. Claro, todos eles tinham a sala-de-ensaio, o ambiente da cena, como um tabuleiro que podia embasar suas propostas e estavam ligados intrinsecamente a ela. E todos eles tiveram o rádio como um campo fértil para investigação da base mais forte das suas proposições estéticas: a palavra. Podemos até concluir que, sem estes autores, não teria se dado o texto moderno como o conhececemos. E o radioteatro é o campo onde a palavra reina, justamente porque, através dele, se dá um exercício único de escuta. Não é à toa que estes autores, portanto, tiveram suas propostas cênicas e o caráter de sua inventividade engajados ao radioteatro como linguagem. Isso tem se desdobrado para uma descoberta no campo da criação contemporânea: em um mundo absolutamente dominado pela imagem, um exercício eminente e exclusivamente de escuta é não só um ato de subversão como a reatualização da importância desse sentido.

 

Para a conclusão desta tentativa de sistematizar um pensamento que está em curso em uma prática – a da própria realização do radioteatro, cabe-nos pensar sobre o que é um radioteatro contemporâneo feito aqui, no Brasil, a partir de tantos contextos históricos e especificidades da remanescente precariedade de suporte cultural que se dá em todas as áreas e gêneros. O que torna o radioteatro mais que vivo, mas também gênero pulsante, potente e necessário aos nossos dias, além da possibilidade única da escuta, é que o radioteatro é a arte da palavra. E a palavra e os enigmas dela advindos, ainda são um instrumento revolucionário. Para tanto, recorro a um autor francês contemporâneo, bastante ativo na sua produção lítero-teatral na França e que em 1980, em um ateliê realizado pela Rádio France Culture compôs uma peça de radioteatro exemplar: O Teatro dos Ouvidos (possível de se encontrar no Brasil editado pela 7 Letras na coleção dramaturgias). A tradução que se segue é de Ângela Leite Lopes:

 

Ele pensava ter arquitetado um método para fazer sua boca dizer tudo o que quisesse. Queria dobrá-la, trabalhá-la, submetê-la todo dia ao teinamento respirado, torná-la firme, torná-la flexível, dar-lhe músculos pelo exercício perpétuo. Até que ela se tansformasse numa boca sem fala, até falar uma língua sem boca… Como um bailarino que quisesse sempre dançar mais, dançar mais longe, dançar até o fim, até que não houvesse mais ninguém no espaço.

 

É exatamente disso que se trata. Reinventar a palavra, reinventar a língua, reinventar o dizer, o que dizer, reinventar a escuta e, por consequência, reinventar o humano.

 

Mas por hora, se reinventarmos o radioteatro no Brasil, já é um bom começo.

 

Rio de Janeiro, fevereiro de 2015.

 

Fabiano de Freitas

Diretor teatral e dramaturgo

 

Diretor de Teatro de Extremos, cia que completa 10 anos em 2015.

Diretor do Núcleo de Radiodramaturgia EBC, projeto patrocinado pela Empresa Brasil de Comunicação que produz os programas Contos no Rádio, Música e Verso e Cena Poética, transmitidos pela Rádio Nacional Rio de Janeiro, Rádio Nacional Amazônia, Rádio Nacional Alto Solimões e Rádio Nacional Brasília e pela Rádio MEC Rio de Janeiro.

No segundo semestre de 2015 estreia o novo projeto Radiodrama, aprofundando a pesquisa de um radioteatro contemporâneo, a partir de autores nacionais em atividade.

Sobre a escuta como ato revolucionário na contemporaneidade

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