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TECNOLOGIA DA PELE – Arte, experimentação, pesquisas interdisciplinares e a dança

TECNOLOGIA DA PELE – Arte, experimentação, pesquisas interdisciplinares e a dança

Por Cristiane Marques de Oliveira[1]

Desde o surgimento da Performance Art e a Arte Conceitual, na segunda metade do século XX, artistas investigaram a experimentação artística, desenvolvendo hibridismos de linguagem ao explorar a INTERDISCIPLINARIEDADE.

Influenciados por estes movimentos, os artistas de hoje desenvolvem propostas artísticas cada vez mais complexas, tanto em termos de formatos (suportes), quanto conteúdo conceitual, em que os processos de pesquisa e criação podem durar vários anos. Um exemplo disso são as experiências radicais na área de arte e biotecnologia. Dentre os nomes mais conhecidos, podemos citar Eduardo Kac[2].

O conhecimento que vinha inicialmente pela vivência da pele é influenciado também pela tecnologia. Uma das grandes questões em debate atualmente destaca que é difícil definir em critérios de metabolismo o que é ser vivo ou não, e artistas influenciados por temas como esse ambicionam criar novas realidades, propõem a interação de interfaces; misturam substâncias, matérias vivas, na busca por sentidos outros; de forma que vêm trabalhando de uma maneira “holística e globalizada” (HAUSER, 2009).

Segundo o escritor e curador do Prêmio Ars Eletronica[3] franco-alemão Jens Hauser, estes artistas são motivados por ideias como: (1) a fragmentação do corpo e o conceito de microorganismo tecnológico; (2) o desenvolvimento de trans-espécies e interações possíveis’; (3) a extensão do ser humano é a mídia, como por exemplo, a televisão a qual pode ser interpretada como extensão do olhar do homem; (4) a cultura é encarnação; (5) questionamento sobre os limites do corpo; (6) busca por uma arte viva; (7) desejo de se transformar combinando uma parte de cosmologia que se revela pela combinação de signos, forma e substância do ser rítmico/mágico, parte do cosmos.

Com relação à PESQUISA e sua estrutura, esta é permeada pela formulação de hipóteses, experimentos e aplicação de determinados procedimentos. Outro ponto importante é que muitas vezes é necessário buscar estratégias de adaptação com objetivo de encontrar soluções para obstáculos e problemas que se apresentam, ou seja, podemos dizer que em se tratando de arte investigativa não há um ‘ideal’ de obra, pois esta é fruto de uma descoberta.

Este preceito parte do cultivo da ‘permeabilidade’ interdisciplinar que consiste em propor o entrecruzamento de dados, provenientes de diversos campos do saber, enfatizando a importância do experimento empírico como meio de ampliar ou multiplicar pontos de vista para verificação de um maior número de possibilidades.

Pensemos o processo criativo como:

 

(…) uma ação complexa e interdisciplinar que envolve os mais diversificados recursos comunicativos, os mais amplos meios materiais e as mais variadas nuances expressivas. (…) O artista age, sim, com ampla subjetividade e com tamanha objetividade. (…) A criação artística, assim, deve ser compreendida como uma multi-tarefa. O artista, enquanto cria se envolve com toda sorte de conhecimento – em contínuo desafio[5]. (RIZOLLI, 2013).

 

Partindo dessa explanação, podemos afirmar que o PROCESSO de PESQUISA e CRIAÇÃO na arte compartilha os paradigmas da ciência como a descoberta e a invenção. No entanto, as duas áreas têm compromissos diferentes, sendo a ciência com o empírico, a vida prática e objetiva; enquanto que a arte tem seu maior compromisso com a evocação da subjetividade, o deleite dos sentidos e da imaginação, sem deixar de ser menos objetiva.

Alinhada a tais proposições, a dança contemporânea se permite mergulhar na INTERDISCIPLINARIEDADE, envolvendo-se com áreas como a antropologia, as artes visuais, a tecnologia, entre outras, desenvolvendo especialidades, fortalecendo a dança como campo do conhecimento. A partir disso, modificamos a natureza do fazer ao ampliar conceitos sobre corpo e formular perguntas como o que é movimento e como ele se processa.

Atualmente o papel do bailarino não se restringe só ao desenvolvimento de habilidades e competências na execução de movimentos, mas também se relaciona com o modo como ele utiliza técnicas corporais para treinamento e desenvolve ferramentas para a exploração criativa de processos de pesquisa. O objetivo é encontrar outros corpos, possibilidades de movimento, estéticas e ressignificações.

No campo da coreografia, compreendemos que coreografar não se reduz à ação de inventar uma sequência de passos e ordená-las no tempo-espaço. A figura do coreógrafo exerce hoje a função de estimular criadores-intérpretes a desenvolver ações e pensamentos a partir do estabelecimento de regras, procedimentos e jogos compositivos os quais exploram uma determinada temática e/ou proposta de trabalho. O coreógrafo é muitas vezes o organizador e ‘coordenador’ de uma série de informações/processos que emergem do trabalho com o bailarino.

Experiências como essas visam um PROCESSO mais aberto em termos de ‘formato’ e concepção do trabalho, instaurando assim um novo paradigma relacionado à autoria da obra.

As universidades de dança no Brasil têm contribuído para formação e aperfeiçoamento de bailarinos, coreógrafos e pesquisadores da área, abrindo espaço para desenvolvimento de metodologias, potencializando a promoção de debates, realização de fóruns e publicações, entre outras ações de suma importância para o fortalecimento e reconhecimento da classe profissional e seu fazer artístico enquanto área artística e do conhecimento.

Porém, apresentamos uma observação importante quanto ao papel da universidade: esta não deve se tornar entidade legitimadora da obra de arte, nem mesmo autoridade no ditame de tendências do mercado cultural, pois ao se instaurar tal prerrogativa corremos o risco de empobrecer a diversidade das propostas artísticas.

Para finalizar, apontamos que o fundamental é alimentar e manter viva a chama que move tanto o artista, quanto o cientista, a saber: a curiosidade e a criatividade.

 

Arte, experimentação, pesquisas interdisciplinares e a dança

Arte, experimentação, pesquisas interdisciplinares e a dança

REFERÊNCIAS:

RIZOLLI, Marcos. A arte e sua natureza interdisciplinar. In: Marcos Rizolli. (Org.). Prospecções Interdisciplinares. 1º Ed.São Paulo: Bernhard, 2013, v. 1, p. 1-120.

OLIVA, Alberto. Anarquismo e conhecimento. Rio de Janeiro. Ed. Jorge Zahar, 2005. Coleção filosofia passo a passo.

BACHELARD. Gaston. O novo espírito científico. (1934) – Presses Universitaires de France. Tradução: Antônio José Pinto Ribeiro. Edições 70. Rio de Janeiro, 2008.

HAUSER, Jens. Le grammaire des anzymes – A gramática das enzimas. In : ‘Du sacré dans l’art actuel?- Do sagrado na arte atual?. Editora Klincksieck. Paris, 2008.

[1] Cristiane Marques de Oliveira tem formação em dança. É graduada em Artes Cênicas, pós-graduada em Gestão Cultural e possui formação na área de pesquisa e composição coreográfica pelo programa ‘Transforme – Perceptions’ (2009-2010) em estudos realizados na Fondation Royaumont – Paris. Foi integrante da Cia. de Dança Palácio das Artes (2001-2009), onde atuou em obras de vários coreógrafos e como criadora-intérprete a partir do método BPI (bailarino-pesquisador-intérprete), criado por Graziela Rodrigues. Em 2005 recebeu o prêmio SIMPARC de melhor bailarina de Minas Gerais, por sua atuação em “Coreografia de Cordel”. Desde 2006 desenvolve trabalhos independentes e em parceria com outros profissionais, assumindo uma prática interdisciplinar no campo das artes, apresentando suas obras em diversas regiões do Brasil e no exterior.

Participou das residências Colaboratório (2010) no Centro Coreográfico do Rio de Janeiro; “Interferencias” México (2010), ZAT 8 – ‘Hallucinatory body’, com Lynda Gaudreau, no Fid 2011 e Interferencias (2121) – Impulstanz Festival, Viena (Áustria).

Realizou curadoria parcial para o evento ‘1,2 na dança’– edição 2011. Integrou a comissão de seleção do Prêmio Funarte Klaus Vianna 2013. Foi coordenadora do projeto Interferências – Plataforma de Cooperação Internacional – na edição realizada em 2013 no Brasil, e é também colaboradora do ‘Interferencia’s book’, apresentado no Impulstanz Viena (Áustria), Devir CAPA (Portugal), Centro de las artes de San Luís Potosí (México) e Bienal de Dança do Ceará (2012).

Desde 2012 é programadora de dança no Sesc Palladium – Belo Horizonte.

www.destilarpele.blogspot.com

destilarpele@gmail.com

[2] Artista brasileiro radicado nos EUA. http://www.ekac.org/

[3] Prix Ars Eletronica: http://www.aec.at/news/ – importante prêmio na área de arte e tecnologia. O evento é realizado anualmente desde 1979 na cidade de Linz, Áustria.

[4] Informações obtidas a partir da participação na conferência realizada de julho a agosto de 2009 no Programa de pesquisa e composição coreográfica ‘Transforme – Perceptions (Percepção), biênio 2009-2010, na Fondation Royaumont – Paris (FR) – www.royaumont.com

[5] RIZOLLI, Marcos. A arte e sua natureza interdisciplinar. In: Marcos Rizolli.

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