Todos os Paulos do Mundo

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por Francisco Russo

Uma viagem ao mundo de Paulo José. Este poderia ser o título deste documentário-homenagem ao ator brasileiro, especialista na arte de interpretar a si mesmo de forma tão intensa e tocante, capaz de fazer com que o espectador muitas vezes se veja na telona. De muso de Domingos de Oliveira à personificação de Macunaíma, Paulo foi a síntese do homem comum, aquele que mora ao lado, sem apelar para truques e tiques. Talvez daí venha sua relevância ao cinema brasileiro, especialmente em um período de intensa polvorosa.

"O espectador precisa olhar fundo no meu olho e saber que tem gente ali dentro."
“O espectador precisa olhar fundo no meu olho e saber que tem gente ali dentro.”

Dirigido pela dupla Gustavo Ribeiro e Rodrigo de Oliveira, Todos os Paulos do Mundo busca uma narrativa que explore justamente a trajetória de seu homenageado nas telas – prioritariamente no cinema, mas também na TV e até mesmo no teatro, no início da carreira, a partir de gravações de arquivo. É a partir da junção destas relíquias que o público, pouco a pouco, não só o reconhece como compreende sua técnica, de atuação e de vida. Para tanto, pensamentos soltos em várias fases da vida são lidos por companheiros de longa data, dentre eles Fernanda Montenegro, Flávio Migliaccio, Joana Fomm e Selton Mello.

O astro principal, entretanto, é sempre Paulo. Seguindo sua predileção pelo cinema autoral, os diretores replicam a estética do também documetário Cinema Novo, de Eryk Rocha, no sentido de unir trechos de vários filmes estrelados pelo ator – sem identificação, de forma a exercitar a cinefilia e, também, dar um maior enfoque ao exibido. Mais do que a origem documentada, importa a sensação provocada por tal cena – mesmo quando a qualidade técnica por vezes decepciona, resultado de anos e mais anos de descaso com a memória do cinema brasilero.

Bastante afetuoso, Todos os Paulos do Mundo oferece ao espectador um vislumbre de seu homenageado que serve também como retrato de uma época, antes e depois do temível AI-5, que mudou para sempre a trajetória do cinema nacional por forçar a migração de seus talentos para a telinha. Por mais que seja um tanto quanto cansativo, pelo uso de muitas cenas dos mesmos filmes, ainda assim trata-se de um importante reconhecimento não apenas a Paulo José, mas também à característica básica do cinema em ser, também, parte da identidade cultural de um povo.

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