Zama

0
172

por Rodrigo Torres

Lucrecia Martel é mais que uma diretora, é uma pensadora. Sobre tudo que a cerca, não à toa seu cinema ecoa de forma tão pulsante suas ideias — e, assim, também pensante é a sua arte. Com isso, é com certa surpresa que o público pode se deparar com Zama, por um olhar supostamente empático a um funcionário da coroa espanhola no século 18 preso em uma colônia na fronteira da Argentina com o Paraguai. O protagonista é um colonizador. Ou, segundo seus próprios pensamentos, um “pacificador de índios”.

Esta informação — em tom absurdamente elogioso que ressoa como convencimento e questionamento sobre o valor de si mesmo — é essencial para se identificar a fina ironia no olhar de Lucrecia sobre a condição de Dom Diego de Zama. Causa e consequência: o protagonista vive uma típica situação kafkiana, confinado em uma máquina burocrática que promete promovê-lo e demovê-lo daquela terra selvagem para a capital argentina Buenos Aires; por isso, dentre outras coisas, uma voz juvenil se entranha em seu pensamento (se materializando aos seus olhos com a forma de um menino suspeito), provocando um estado de confusão mental que redunda em seu infortúnio: a decisão de caçar o “terrível” Vicuña Porto, um bandido misterioso que invade casas e estupra moças.

Zama: Críticas AdoroCinema
Zama: Críticas AdoroCinema

Dom Diego é, assim, um homem encerrado no sistema de que ele mesmo faz parte. Um colonizador sofrendo os terríveis efeitos da colônia — onde, curiosamente, os colonizados se mostram livres (literalmente), enquanto ele, não. Ainda no início do filme, o protagonista observa nativas nuas e é repreendido aos gritos de “voyeur”, para sua expressão de pavor. A própria dimensão quadrada da tela acentua esse efeito quando o plano se fecha; os closes constantes no rosto de Daniel Giménez Cacho, em atuação silenciosa e eloquente, espelham medo, claustrofobia e desnorteamento. A principal cena de Zama — que se repete — é um plano aberto lindíssimo que enquadra o personagem sozinho, e sempre à vista da presença selvagem da natureza ou de nativos. Sempre exposto. Perigo constante.

O desespero de Dom Diego é a base narrativa de Zama. Entre tarefas inúteis e a manipulação banal de quem o rodeia, o protagonista é constantemente retratado em planos fechados na nuca que ilustram sua perturbação. A experiência totalmente imersiva na América do Sul do fim do século 17 gera uma atmosfera febril — como tantas vezes parece o protagonista, tão perdido quanto suado, seu figurino pesado formando um contraponto agoniante com o clima quente e úmido sob o que se encontra. Destemida, muito ousada, Lucrecia toma uma postura radical e evoca esse desconforto no público durante quase duas horas de um ritmo intensamente arrastado, incômodo. A narrativa é sinuosa, feita de enigmas nos diálogos, nos personagens, no quadro. Em algum momento, será mais interessante enfocar, em detrimento da ação, o expressivo olhar de um cavalo.

Zama: Críticas AdoroCinema
Zama: Críticas AdoroCinema

Assim, Lucrecia gera uma experiência atordoante, desafiadora porém marcante, que encena com perfeição o livro homônimo em que se baseia, de Antonio di Benedetto, publicada em 1956. A cineasta argentina constrói cinematograficamente um suspense que brota da fenda da linguagem, das elipses do texto para a cena, e isso realça perfeitamente uma proposta tradicional da autora de O Pântano, Menina Santa e A Mulher Sem Cabeça: representar a falha na existência de seus personagens. Assim, Martel se apropria da obra-prima da Trilogia da Espera e articula sua própria arte, de uma autoralidade que questiona de maneira frontal as deformações do indivíduo e da sociedade. Em Zama, a discussão vem logo abaixo da representação.

Por isso, o desconforto do público não espelha apenas a angústia de Dom Diego — para Benedetto, o que Josef K. foi para Kafka. O mal-estar (extremado por um som grave da caixa do baixo como se ecoasse de dentro da cabeça) pulsa de todo o contexto de uma colônia caótica. A selvageria reside tanto no ataque de índios pintados, como na servidão do homem negro. As ações do insano Vicuña Porto são mais bárbaras que a “pacificação” de nativos ou mera questão de ponto de vista? O convite à reflexão (bem sutil, é verdade) explica nossa empatia por Zama. A pergunta, Lucrecia Martel responde em uma cena final chocante. Todos padecem.

Filme visto no 19º Festival do Rio, em outubro de 2017.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here